"[...] Deixei ele em casa. Tinha subido a rua, pelo passeio, esfregando os dedos na parede. Conversava calado com com qualquer coisa que me tirasse o silêncio. Em noites assim, não tinha tempo para pensar muito. Só vagar. Devia ter perdido algo por alí e sempre procurava. Mas ninguém perde o que não tem. E se perde, é por que nunca teve.
No fundo, estava tudo raso, e eu me afogaria a qualquer momento em pensamentos medíocres. Buscava um valor que valesse a pena, mas sempre acabava pagando um preço, e esse preço, me apagando. Não entendia nada do que eu pensava e o drama era um capítulo póstumo no meio de uma história sem vida. Ridícula.
Ouvi um "POHA!" num estabelecimento ao lado. Me desconcentrei. Meu foco era ter o que escrever depois, mas esse episódio ficou só no eco daquele grito. Saí do transe, desci a rua, perdi meu drama na cama. Nada pode ser mais trágico do que ser obrigado a ver sua vida na parede branca de um quarto. Estávamos novamente sozinhos em casa. Eu e ele: o medo."
No fundo, tudo é raso.
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