Confesso ao travesseiro nas noites em que o sono pesado não me deixa dormir. Assumo para ele a inutilidade de ser útil e me permito não ser usado mais. O problema é que quando não deixo isso acontecer, as coisas ficam vazias de mais e a mente cada vez mais cheia. Então, para me desocupar dos problemas, já vendi meu carinho em troca de algumas palavras. Às vezes nem eram as palavras que eu gostaria de ouvir, mas eram palavras que se dirigiam a mim e por isso me faziam lembrar que sou alguém.Mas já vendi muito das poucas coisas que eu era, a preço de um abraço, sorrisos, bancos traseiros, silêncio. Como eu gostaria que o meu silêncio fosse algo que eu pudesse vender. Mas ninguém compra aquilo que a maioria das pessoas não enxergam, ou enxergam como problema.
Mas ninguém vai ter muito o que lembrar quando eu me calar, pois o que fala em mim não tem o hábito de usar a voz. Talvez então lembrem-se da cobrança da minha falta sempre presente. Como o homem tem o péssimo defeito de esperar por existências, e como tenho motivos para não esperar, vivo de uma forma diferente e sobrevivo com a simulação desse homem. Já vendi muita coisa, que sempre faço questão de recuperar. Outras acabei dando de graça e isso me fez sentir pena.
Por enquanto tenho alugado minhas coisas, pois não é tão fácil lhe dar com o desapego do que me faz humano. Minha esperança se encontra em hipoteca, já o meu carinho, sei lá. Acho que sempre o deixo no travesseiro toda vez que acordo de manhã, para não esquecer que ainda posso existir enquanto dormir.
Nenhum comentário:
Postar um comentário